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quarta-feira, 29 de maio de 2013

LEITURA: O PARADOXO FINLANDÊS

A China e os ‘tigres asiáticos’ - Hong Kong, Coréia do Sul, Singapura e Taiwan – são hoje modelos de economias desenvolvidas. Esses territórios e países apresentaram grandes taxas de crescimento e rápida industrialização entre as décadas de 1960 e 1990. A principal causa desse salto de desenvolvimento foi o investimento maciço em educação.

Nos países desenvolvidos, de uma maneira geral, investe-se muito em educação e exige-se igualmente muito dos alunos. É o caso, dentre outros, além dos já citados, do Japão e da Alemanha.

Como regra geral, nesses países:
  1. Os professores são valorizados, e seus salários são altos;
  2. As crianças entram muito cedo na escola, e são alfabetizadas já na pré - escola, aos 4 – 5 anos de idade;
  3. As escolas são de tempo integral, ou, quando não, têm jornadas longas;
  4. Os alunos têm muita lição de casa. Destaque aqui para os orientais;
  5. O número de dias letivos é maior que nos demais países. Destaque para o Japão, com 243 dias letivos;
  6. Nas escolas, buscam – se, incessantemente, métodos pedagógicos revolucionários (na verdade, ‘milagrosos’);
  7. O uso da tecnologia em sala de aula é incentivado e até mesmo superestimado;
  8. Investe – se muito do PIB em educação;
  9. Há gigantescos exames nacionais para avaliar a aprendizagem dos alunos.
Portanto, podemos concluir que a solução está ali. Basta seguir aqueles nove itens para obter o sucesso educacional. Em sentido contrário, basta fazer diferente, para encontrar o fracasso.

Mas, em educação, a coisa não é tão simples assim. A Finlândia faz quase tudo ao contrário, e é um dos países com a melhor educação do mundo. Por quatro anos consecutivos, a Finlândia ficou entre os primeiros lugares no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mede a qualidade de ensino.
E, na Finlândia:
 
  1. Os professores são valorizados, mas, apesar de altamente capacitados e qualificados - devem ter no mínimo o mestrado - seus salários são apenas médios;
  2. Não existe bônus para os professores cujos alunos apresentem melhor rendimento (praga criada nos EUA, onde já naufragou);
  3. As crianças só entram na escola a partir dos 7 anos, e só aprendem a ler e escrever com essa idade (7 ou 8 anos), para que possam ‘curtir’ a infância;
  4. Não há escolas em tempo integral; ao contrário, a jornada é curta; algumas escolas têm uma jornada de apenas 4 horas;
  5. Os alunos não têm muita lição de casa;
  6. O número de dias letivos (188) é menor que nos demais países;
  7. Nas escolas, não há métodos pedagógicos revolucionários;
  8. O uso da tecnologia em sala de aula é comedido (‘tecnologia é ferramenta e não conteúdo’).
  9. A Finlândia investe apenas 6º do seu PIB em educação;
  10. Não há gigantescos exames estaduais/nacionais para avaliar a aprendizagem dos alunos.
Eis aí o paradoxo finlandês: aparentando uma estrutura precária de ensino (poderíamos, acima, estar descrevendo o sistema de ensino de um país subdesenvolvido), a Finlândia apresenta um dos melhores índices de sucesso da educação pública !
Esse quadro, no mínimo, nos obriga a refletir sobre algumas ‘certezas’ que temos, quando fazemos propostas para a melhoria da escola pública no Brasil e em São Paulo: alfabetização precoce, escolas de tempo integral, bastante trabalho de casa para os alunos, aumento do número de dias letivos, busca incessante de métodos pedagógicos revolucionários, endeusamento do uso da tecnologia em sala de aula, fatia maior do PIB para a educação, exames estaduais e nacionais para avaliar os alunos e as escolas, bônus para os melhores profissionais etc.

Pode ser que o Brasil e São Paulo ainda precisem de tudo isso. Mas pode ser, também, que, mais uma vez, ‘o buraco seja mais embaixo’. Pode ser que o problema se resolva com coisas simples: descentralização, autonomia, professores motivados, bem qualificados e treinados, ambiente de trabalho interessante. Coisas simples para a Finlândia, é claro, com sua tradição cultural.

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