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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

LEITURA: DEVER FORA DE CASA

Uma criança disse a outra na escola: `Encontrei uma camisinha no pátio.`

`O que é pátio?`, respondeu a outra.

A piada não é nova, nem é tão engraçada. Roubei a ideia de um especialista em educação, um assunto tão chato, que precisa de uma isca para atrair o leitor sobre a decadência das escolas em geral, em especial, as americanas.

Os Estados Unidos gastam quase US$ 10 mil por aluno por ano e estão atrás de quase vinte países que gastam muito menos.

Há estudos e pesquisas quase diários e esta semana um deles compara doze países: EUA x Mundo. Além dos Estados Unidos, estão Inglaterra, Austrália, Canadá, Finlândia, França, Dinamarca, Coreia do Sul, Japão, México, Rússia e Brasil.

Poucas surpresas. O Brasil não sai bem na foto. Gasta quase tanto quanto Inglaterra, França e Alemanha, mas, por aluno, investe pouco: US$ 1.683, cinco vezes menos que os Estados Unidos, três vezes menos que Inglaterra e Finlândia, pouco menos que a metade do que a Coreia do Sul.

A Finlândia é a campeã em matemática e ciências. Nenhuma surpresa. Estão no pódio há vários anos. Mas, como é que os coreanos, que gastam muito menos do que a Finlândia e os Estados Unidos, conseguem ser vice-campeões em matemática e quinto lugar em ciências?

Na Finlândia e na Coreia, os estudantes passam 17 anos nas escolas, do primário à faculdade (no Brasil é onde passam menos e na Austrália onde passam mais).

O dever de casa é o vilão ou a solução? O assunto está nas manchetes porque o presidente da França quer acabar com o dever de casa. Para os estudantes, boa notícia e péssima notícia.

Na França, a semana estudantil é de quatro dias longos com folga na quarta. O presidente propõe o fim do dever de casa, menos horas na escola em troca de mais meio dia de aula na quarta. Fossa estudantil.

E na campeã Finlândia? Dever de casa já era, há muitos anos, o dia escolar é mais curto e os estudantes começam a estudar aos 7 anos.

Noutro estudo, sobre 70 países, da revista The Economist, a Finlândia também aparece em primeiro, a França em 25º, atrás até dos infames americanos, em 17º (a Itália, onde os estudantes passam três anos a mais na escola do que na Finlândia, aparece em 24º, um lugar antes da França).

Se a Finlândia não usa dever de casa, a vice-campeã, Coreia do Sul, acredita tanto em dever de casa que o governo mandou fechar as escolas de reforço às dez da noite porque, se pudessem, os estudantes entrariam pela madrugada. A rigidez da disciplina coreana na educação é fonte de inspiração, deboche e mistério.

Vários países tentam fórmulas híbridas, e nos Estados Unidos, onde os Estados tem liberdade de ação, as experiências chegam aos extremos, mas não há conclusões definitivas. Algumas fórmulas deram resultados surpreendentes.

Sara Bennet e Nancy Kalish, de Nova York, são autoras do livro The Case Against Homework e lideraram com sucesso campanhas para eliminar dever de casa nas escolas dos filhos em Brooklyn, com excelentes resultados.

Um dos maiores especialistas em educação secundária, Harris Cooper, da Universidade Duke, defende o dever de casa com base em quarenta anos de pesquisa. É menos eficiente com alunos do curso primário, mas essencial no curso secundário.

Dentro desta multiplicidade de propostas e resultados contraditórios, há algumas constatações indiscutíveis. Os ricos em geral têm notas melhores porque os pais pagam professores particulares e aulas de reforço.

O presidente francês, François Hollande, um socialista, quer acabar com dever de casa para eliminar as vantagens dos ricos e seguir o exemplo - mais igualitário - campeão dos finlandeses.

No Brasil há um excelente portal sobre educação, o Porvir, que funciona como uma agência de notícias gratuita especializada em inovações em educação, nos diz a editora Mariana Fonseca.

Sob curadoria do jornalista Gilberto Dimenstein e direção da Anna Penido, os `porvirnianos` fazem um garimpo diário sobre educação no mundo e oferecem contatos para a mídia.

Mariana diz que a discussão vai além do dever de casa. Há duas grandes tendências, o flipped classroom, em que o aluno aprende o conteúdo em casa por vídeo-aulas e vai à escola tirar dúvidas e fazer exercícios. A outra é o blended learning, como o nome indica, um sistema híbrido com ensino online e offline, dentro e fora da sala de aula, e dá ao aluno a opção de escolher como prefere aprender.

Nunca tive problemas com dever de casa e me lembro que um dos melhores momentos da vida estudantil foi justamente quando, durante um dever de casa, aprendi a ler música. Tinha uns treze anos e ainda é inesquecível, mas com certeza não vai ficar muito mais tempo na memória. A leitura da música já apagou há décadas.

Meu problema era com professores grossos e preguiçosos que mandavam decorar textos enormes e inúteis, esquecidos um dia depois da prova.

Meu professor de desenho no colégio militar, um gaúcho, foi um dos mais finos e didáticos, mas sem nenhum interesse em disciplina. Era a única aula em que eu sentava na primeira fila, e quando a turma da pesada, lá atrás, só faltava incendiar a sala, ele finalmente parava a aula e dizia ao mais destemperado: `Meu filho, eu não sou teu pai`. Virava para o quadro negro e continuava a aula.

Meu currículo escolar não me dá nenhum autoridade para oferecer conclusões sobre dever ou não dever de casa, mas dou nota 10 para a música (Um Bom Professor,um Bom Começo), que tem o refrão `Todo bom começo tem um professor...`.

Lucas Mendes
Matéria publicada no Portal G1 (Globo.com), 13 de dezembro de 2012.

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